21.1.10
O Blog Mudou de Casa
www.barrigadabaleia.wordpress.com
Lamento, mas é melhor =]
Obrigada pela visita!
6.1.10
Deus, Pornografia e Fast-Food
Há quem se sinta mal. Há quem se sinta culpado. Eu encho outro copo e abraço a natureza humana.
06-01-10
29.12.09
Cascais
Em Cascais, todos os dias é dia de dizer adeus. Despeço-me a cada passo de cada passo que dou.
Para mim o tempo está sempre cinzento em Cascais. E se a terra se abrisse e comesse toda a gente, eu era a única que não ficaria surpreendida.
Nasci e morri em Cascais.
Caminhar nestas ruas é viver de tripas expostas, é arrastá-las pela calçada fria. Desde que morreste, não voltei a respirar em Cascais sem um sobressalto de mágoa. E vejo o teu rosto em todos os corpos, em todos os vultos à espera nas passadeiras, e tu olhas para mim durante três segundos de dor dilacerante. Depois és sugada para dentro do rosto de uma qualquer pessoa que, afinal, não conheço de lado nenhum.
Não há uma rua neste maldito sítio que não tenhamos benzido com o nosso sangue, com a nossa saliva, com o nosso gritar. Orgulhámo-nos dessa conquista. Agora tudo o que resta é um campo de batalha destroçado com fantasmas que me condenam à paranóia.
Lambendo as nossas mãos ensanguentadas, abortámos o Futuro. Assim colhemos a Eternidade. Entreguei-te a minha Casa, quem diria que isso viria a humilhar-me assim? Caminho nas tuas ruas, nas tuas praias, nos teus esconderijos. Tudo troça de mim.
Em Cascais, ninguém me sorri. Bate-me todo o fumo na cara e a nossa música toca em todo o lado.
Este foi o lugar que eu mais amei no Mundo. Deitei isso a perder...
Porque nada do que é meu me pertence. Porque por isso, quis dar de mim. E em todos os lugares em que esqueci de me amar, perdi-me. Tudo em troca de um acorde perfeito.
Hoje está um dia cinzento em Cascais.
E tudo o que eu queria
27-12-09
«Don’t give away the end,
the one thing that stays mine.»
25.12.09
Receita
Raiva sendo a chuva ofegante contra o peito.
Raiva em todas as preces por finais inesperados.
E nunca,
nunca
nunca
esconder.
Love O' Love
Fecho os olhos e sei, não posso ser sempre eu a rasgar os cenários. Quero ser o grande vazio às vezes, e planar.
Quero que percebas com os teus próprios olhos.
Ao teu peito pertence o meu punhal.
7.12.09
O Feitiço
Não vamos desperdiçar o tempo. Vamos levando a boca à garrafa, os olhos ao fumo. Vamos levando as mãos ao peito, esmagado de introversão. É uma terceira puberdade. Uma segunda infância. Uma primeira velhice. Em que todas as luzes se apagam.
Dançamos s e m e s c r ú p u l o s em todas as espeluncas, saltamos com tanta força que voamos, ou ficamos flutuando em cambalhotas no ar. A música penetra-nos até à virgindade. Não há roupa sem suor. A gravidade arranha-nos os tendões, vagarosa.
Corremos à chuva pelo autocarro, damos a mão e o nosso cachecol é subitamente a p r ó p r i a g a l á x i a ; depressa nos vemos perdidas.
Tudo é mágico nesta história. As facas da cozinha. O açúcar amarelo. Os lençóis. Os cereais de pequeno almoço. Os metros infindáveis. Chegamos a casa já fazendo amor.
As minhas roupas correm a tapar todas as janelas, o escuro agarra-nos os corpos. E somos apenas notas de uma melodia maior.
Tudo é trágico nesta história. O medo. As plantas da sala de estar. As lágrimas. As promessas.
...Mas as roupas caem e mesmo junto da luz, o feitiço não se quebra.
28.11.09
27.11.09
Tu e Eu
Neste momento, eu faria amor contigo como se fosse a primeira vez.
Não me lembro, aliás, de ter feito amor contigo de alguma outra maneira.
Cairiam pétalas do tecto enquanto os meus lábios te viajavam, e talvez escutássemos chuva lá fora, como que tombando nas teclas de um grande piano, largando uma melodia só nossa e movendo a passagem do tempo.
O ar tornar-se-ia denso, perfumado de desejos, espantado consigo mesmo. Revolvendo-se em fluxos de luz, cor, som e aroma - todas as matérias-primas do Criador.
Escreveríamos um romance de mil páginas apenas com as palavras com as palavras que suspiramos nessas noites. Nada nem ninguém nos vigia e é toda nossa a liberdade dos amantes voadores.
Tu e Eu, sem escrúpulos, prisioneiras da nossa pele, e em expansão infinita através da trama do Universo.
26-11-09
23.8.09
22.8.09
Misty and the Dragonfly
That day nothing could harm at all
The girl the angel sealed her lips
Through the crops of golden corn
It took one
pinching around her thighs
licking around her veins
a new surprise
a brand new pain
It took one
little burst of air
a millimeter spared
and she was all thirst and sighs
a brand new pain
a new surprise
What a morning in the fields
A jungle of soft stabbing
Born again stung on the hip
The girl the angel licked her lip.
9.8.09
Pensamentos Profundos
Ri-se de mim: Tu consegues lá pensamentos profundos sem estares completamente charrada.
Mando-a ir-se foder. Consigo sim. Sou a porra de uma metralhadora de pensamentos profundos. Vê-me só.
Não encontro uma caneta. Desisto. Ela ri-se outra vez, disfarçadamente. Vou até à cozinha, enfio um chupa na boca e dispo os calções e as cuecas. Sento-me na bancada com ar de puta e assobio. Ela vem. Quando me vê de pernas abertas, começa a andar devagarinho como um gato matreiro, e como um gato baixa ligeiramente a cabeça para não dar nas vistas. Quando está muito perto de mim, cheira-me o pescoço como se eu lhe fosse estranha. Depois arranca-me o chupa da boca e passa-o entre as minhas pernas. Eu sustenho a respiração, chocada, punida. Ela enfia o chupa na boca e roda-o lá dentro, esfregando-o na língua, com a boca aberta. Depois diz: Não prestas para nada.
Depois repete: Não prestas.
Agarro-a pelo pescoço com tanta força que os olhos quase lhe saltam. Num impulso atiro-a ao chão, não bate com a cabeça porque se apoia nos cotovelos, mas os longos cabelos castanhos agitam-se ondulantes em câmara lenta.
Depois sento-me na cara dela e faço-a pedir-me desculpa. Ela resiste. Eu agarro-lhe os cabelos e monto-a, vingativa. Ela cede e agarra-me as coxas enquanto se alimenta de mim.
A TV ficou ligada, oiço o noticiário da sala, começou a época de incêndios. Ardem colheitas, casas, animais. Árvores centenárias. Olho para baixo e ela continua a lamber, não se podia estar mais nas tintas. Há pequenas gotas de suor a escorregar em volta do pescoço moreno. Penso em levá-las para apagar os fogos. Mas em vez disso deixo-me estar.
7.8.09
2.8.09
Ela - 2 Agosto
Vou imaginá-la com os olhos abertos, para que a realidade me socorra. Tem de ser denso mas quente. Transcendente mas carnal. Já sei.
O coração dela bate ao ritmo de Portishead.
Quero continuar. As minhas mãos levantam-se no ar como se me preparasse para tocar num enorme piano. Os dedos esticam-se e contorcem-se, buscando tocar a poesia líquida do ar. Os meus ombros arrepiam-se, num vazio ansioso. Vou imaginá-la com as mãos abertas, para que o mundo me possa agarrar.
Ela está à minha espera no topo de uma montanha que escalou durante dias, sozinha e descalça. No entanto os pés dela permanecem intactos, como que por magia.
Pouso a caneta observando a minha sombra. Se eu imaginasse nestas paredes um enorme oceano, a minha sombra é tudo o que eu seria. E fecho as mãos cega de poder, de poder escolher ser apenas isso. Poder ser qualquer coisa.
Ela tem o cabelo caído sobre o rosto, e nada conhece acerca da Beleza que esperam que ela simbolize.
Quero tocar mas tudo o que sinto aqui é a minha própria textura. Quero provar mas tudo o que tenho aqui é a minha própria saliva. Fecho os olhos para que a realidade não possa salvar-me nunca mais.
Ela dançará comigo flutuando, para que nunca nos pisemos acidentalmente.
A luz da manhã vai soltar fiapos brilhantes à nossa volta, e ela vai chorar comigo apenas de felicidade.
Vamos passar as noites acordadas em demandas imaginárias. Como crianças perdidas.
Nos olhos dela vou encontrar a selva e o lar.
Vou resgatá-la agora, deixando o escuro para trás. Charcos de poesia líquida para ela beber das minhas mãos. E hei-de encontrá-la, e vou amá-la, de olhos fechados e de mãos abertas.
29.7.09
Telefonema - 18 Julho
Estou à espera que atendas.
Depois digo: Olá.
Digo: Sou eu.
E eu sei, que o meu Eu será sempre o teu Tu.
Susténs a respiração, como que assustada. Depois dizes, A tua voz., Não estava à espera de ouvir a tua voz. É a melhor voz do mundo. É a única voz que eu quereria ouvir para sempre.
Agora estou à beira de lágrimas estremecentes e engulo em seco. Digo qualquer coisa e tu interrompes-me, Amo-te.
Digo, Também te amo.
Dizes, Amo-te mesmo, mesmo a sério. Como dizias antes. E eu sorrio e o meu olhar encontra-se sem querer com o meu reflexo no espelho, e vejo-me sorrir para ti, e essa visão dilacera-me como dilaceram os cheiros que se perderam na infância.
Quero saber como estás. Mas como estamos não é relevante quando estamos a ouvir as nossas vozes, novamente juntas, como instrumentos solistas da maior sinfonia da História.
Repetes, Amo-te para sempre. E dizes o meu nome num suspiro tão profundo que quase cai e bate no chão. Sabemo-nos perdidas. Para toda a eternidade. Como para toda a eternidade me ofereces o teu amor, sem as hesitações das pessoas comuns.
As lágrimas irrompem, como tempestade. Pedes que não chore, pedes sempre que não chore, como se o tempo que temos nesta vida fosse escasso demais para o perder a fazer algo que não seja repetir, Amo-te. Amo-te. Amo-te. Amo-te.
A tempestade regressa ao coração. Páro de soluçar.
Digo adeus, desligo o telefone, e juro que me sinto como se tivesse uma fera demente dentro de mim a quem acabei de dar o alimento mensal.
O Teu Rosto - 16 Julho
Tento afastá-lo, ignorá-lo, cobri-lo até de outros rostos.
Rostos diferentes.
Ou rostos antigos.
Mas
quando o dia chega ao fim e o silêncio se abate,
o único rosto que quero ver é o teu.
Família - 12 Julho
Eu e tu, vivemos numa rotina silenciosa de amor.
Eu estendo a roupa enquanto tu fazes o jantar. Eu brinco com as meias desirmanadas, e tu gritas com o tabuleiro a escaldar. Canto uma música qualquer.
Depois jogamos à apanhada pela casa toda, descalças, delirantes, para ver quem lava a loiça. Eu e tu, brilhantes como irmãs, ofegantes como amantes.
Contigo o amor é uma Casa.
Choro por cima do teu colo, soluço-te na camisa, e tu assustas-te de me veres as feridas.
Saímos quando está sol, eu dou de comer aos gatos vadios, tu ficas a olhar para mim em silêncio. Depois entramos no carro, tu pões aqueles óculos escuros com que eu embirro constantemente, e ouvimos a música que eu tornei necessária aos nossos dias.
Perdemo-nos num ou outro debate trivial, amamos como crianças a paisagem, e seguimos sem destino a morrer do prazer da liberdade.
Contigo o amor é uma viagem.
À noite fumamos um charro, conversamos ou lutamos em pijama, eu ganho-te sempre apesar de me dares umas vigorosas palmadas. Eu gozo contigo por ficares despenteada, e provavelmente por alguma coisa que disseste com sotaque. Deitamo-nos juntas a ver um filme, tu adormeces sempre primeiro, e eu ralho contigo e chamo-te porque estás a perder a história toda. Quando o filme acaba queres sempre que eu fique, mas eu vou para a minha cama porque já sou crescida. De manhã acordas-me tranquilamente 5 vezes até eu me levantar. E começa tudo outra vez.
É como se o tempo se estendesse num lençol que nos baloiça, só quero ver e agarrar tudo. A vida é tão intensa mas é segura. Deixas-me voar tão alto mas nunca me falhas para eu pousar. Somos uma família.
Proudly Untitled - 12 Julho
Escrevi mil coisas e mil coisas apaguei destemida.
Tudo o que quero dizer é que te quero, que te quero e sei que vou cair.
Divagações Em Dueto - 12 Julho
(...) A única parte divina acerca dos acontecimentos é, justamente, a Escolha. E a única parte misteriosa somos, surpreendentemente, nós mesmos, arquitectos e construtores distraídos das obras de arte com que nos deparamos, desconhecendo que é nosso o mérito, e não da Coincidência.
Poderás responder, - e o fluxo que corre dentro de nós, não será ele divino? – e eu responderei, sim, absolutamente. Mas será ele sempre a comandar os nossos pés, as nossas mãos? Será ele quem traz os momentos-chave até nós? Ou será ele apenas o processador? – E tu, cheia da sabedoria da tua paixão, responderás, mas não estará o fluxo divino em tudo? Nas mãos, nos pés, nos acontecimentos, na brisa, nas sensações, nas aparentes coincidências? E eu render-me-ei – sim, tens razão. Tudo é divino, tal como nós. Somos criação, depois criadores. – E no fim faremos amor até anoitecer, porque nada mais nos resta.
Para Sempre - 30 Junho
Vou sempre amar-te com a força de um leão que esfaqueia a fémea com as suas garras enquanto a possui. Ela sangra e geme mas o rugido é mais poderoso e ecoa na planície inteira. Abutres apáticos esvoaçam.
Vou sempre amar-te como se ama um revólver a escaldar na mão.
Como fadas, como brisas, como purpurina.
Como carne humana nos caninos.
Vou sempre chorar-te atenta ao teu cheiro na multidão. E vou persegui-lo até encontrar um antídoto.
Nunca serei perdoada por ter embalsamado esta fome autoritária, por a usar ao peito quando já não existes. Por te ordenar que te ajoelhes, nos meus sonhos, como fazíamos, no teu quarto.
Vais sempre amar-me como um oceano que engole, ofegante, perturbado.
Vais ser sempre a erosão dos meus muros, com o teu olhar sôfrego que se esfrega.
Olhas para mim com temor, deslumbramento, urgência.
Como estrelas, como açúcar, como pêndulos hipnóticos.
Para sempre, perdi-te entre a multidão. E assim se perpetua o instante de um silêncio assassino.
O leão é mero cadáver. O rugido dissipou-se.
Abutres esqueléticos regozijam-se com a minha carne envenenada.
Até ao pôr-do-sol - 24 Junho
Fico na cama, despida. Oiço os gatos vadios delirando na rua, a procurar esfomeados onde depositar a sua fúria sexual. Murmuro-lhes que às vezes mais vale esperar pela chuva gelada. Não vai chegar o nosso casulo. Não surgirão os olhos perfeitos que nos farão florescer. Não podemos continuar à espera.
Tapo-me com os lençóis até não ver um ponto de luz.
Até ao pôr-do-sol gememos, eternamente vadios, eu e todos os gatos.
Canção de Amor - 21 Junho
Oiço as canções de amor dos outros e sorrio, feliz por haver quem ame. Estou de sol no rosto e bainha na mão. Não há canção para mim. Não faz mal. Eu sorrio ouvindo as dos outros, sozinha, triunfante de escuridão e desejo.
A poesia diz-me para esperar. Que ficarei forte e maior. Que alguém vai querer segurar-me. Mas eu só quero que me larguem, que me soprem.
Porque o meu amor está no vento.
Está no brilho de todos os olhos.
E nas minhas asas ardendo na luz.
Está nos livros empoeirados.
No silêncio do beijo.
Nos pianos irrequietos.
O meu amor está vibrando em todo o lado a toda a hora.
E foge, para eu nao parar de o encontrar.
27.7.09
Beatas - 9 Maio
(Chovem beatas no meu telhado e há musgo a crescer em mim. As horas passam e fogem depois de me montarem como prostitutas bem ensinadas. Pequenas florzinhas brotam da humidade do meu corpo.)
Tenho a certeza de que não te lembras de quando adormecias ao meu lado e eu ficava a noite inteira a contar os teus cabelos, fios brilhantes de certeza. Brilhantes de promessas.
Às vezes gritavas comigo e eu apaixonava-me ainda com mais força pelos teus olhos. Doente.
Agora as noites são límpidas de sonhos e ninguém chora. Sinto falta das tuas lágrimas na minha cara, porque estavas perto. Tão perto.
(Queria alguém a chorar contra mim.
Alguém que arrancasse este musgo.)
Quase - 8 Maio
Estou quase preparada, mas não realmente.
Sou sempre acompanhada, mas não realmente.
Estou quase equilibrada, mas não realmente.
Sou quase amada, mas não.
Tenho um pássaro sonolento na janela e uma amante voadora na cama. A tarde cose juntos os nossos corpos, flutuantes entre fiapos de luz. Vejo-nos no espelho,
eu e ela
no ar.
Não temos peso nem densidade, somos só cor e afecto, fome e reflexo.
Sou quase amada, mas não.
Amor Nocturno Subaquático - 29 Abril
Vieste de madrugada quando eu já estava sóbria. As veias quase saltavam do teu braço, quase rompiam a pele, tão inchadas e azuis. Eu acendi um cigarro de mentol e apercebi-me de que o meu romance não tinha futuro.
Pensei em Greene, pensei em Cunningham, em Palahniuk, pensei no teu sexo vertendo os meus sonhos. Mas nada.
As palavras junto de ti esvaíam-se em desejo. Os teus lábios cheiravam a baunilha dentro da minha cama e sorrimos até o sol raiar. Os meus pés contra os teus pés. A pedalar o sono.
19.1.09
O Meu Quarto
estou a descobrir o meu quarto
fendas tuas nas minhas paredes
mãos que me alimentam
com frutos envenenados de amor
estou a descobrir a minha cama
as tuas coxas nos meus lençóis
não sei adormecer sem ti
porque não cheguei a acordar
estou a lamber-te da minha pele
a recortar-te dos meus cabelos
as tuas mãos as tuas mãos as tuas mãos
tricotando a minha loucura
estou a expulsar-te do meu chão
onde despimos adolescentes gritos
estão a martelar-me no peito
os teus olhos os teus olhos os teus olhos
17-01-09
23.6.08
Cautelosamente
penso em ti
sem saudade
apenas uma espécie de vácuo
onde antes
me perfuravas.
Muitas vezes por dia
penso em nós
sem saudade
apenas uma nostalgia triste
de quem me fazias ser.
E os lábios sangram em vão
sem culpa
apenas uma espécie de súplica
por tudo o que não foi dito.
Costumava pensar em nós
como um espelho
onde iria permanecer
imutável
e ao coser as pálpebras
lembro-me das tuas
cautelosamente fechadas
para não reparar.
14.05.07
18.4.08
Por Mim
numa selva de crianças suicidas
Por mim cortaste-te da carne
que tínhamos nutrido a cuidado.
Por mim. As páginas perderam-se
entre os teus olhos amor, morte
Por mim ergueram-se mil lápides
em beijos fugidios e terminais.
Foi por mim e nada pediste
nem uma lágrima, nem um perdão
Apenas alguma dor imaculada
que mais tarde roubaste, por mim.
Por mim o sol nas tuas faces mutantes
Por mim noites de ardente choro
Por mim seios gelados sem mãos
Foi tudo por mim e eu soube.
É para ti o presente, desfigurado e só
Para ti o que resta de histórias mentidas
Para ti paixão pálida que se escapa
Entre os dias, as noites, o sangue.
11-03-08
20.1.08
Aquela Manhã À Sombra
sabe a eternidades suspensas
por fios de metal gelados.
Consigo morder os teus olhos
têm texturas difíceis
choramingam-me nos lábios.
Diz-me que sou só dela
dela implacável e dura,
aquela manhã à sombra.
Diz-me que ela me mata
e me devora cega
se eu me tentar afastar.
Cosendo-me a pele à cama
eu consigo crer nos muros
que se erguem brancos suados.
Consigo sentir os teus dedos
esfomeados dentro de mim
infantis assassinos.
Encosta-me às tuas palavras
e degola os meus avisos
como se fossem crias.
Obriga-me a ver as feridas
que ficaram nas tuas entranhas
daquela manhã à sombra.
20-01-08
Não Me Deixes Ir
Não me deixes ir
não permitas
a minha partida
não dês autorização
eles mentem
eu não voltarei
se me for.
Não me deixes ir
não te enganes
só tu sabes
onde pertenço
desconheço
onde me levam
mas não lá estarás.
Não me deixes ir
é mentira
que estamos sós
não consintas
que me afaste
não distraias
o olhar.
Não me deixes ir
teme as sombras
segura-me
eles vêem
não admitas
que me levem
não me esqueças
se me for.
20-01-08
24.10.07
Tarde
Apaguei um cigarro nos olhos dela
e senti o cheiro das lágrimas queimadas
nesse momento eu estava capaz de jurar
que a amava
como a nenhuma outra
como a nenhuma.
Mas não jurei
lambi o sangue e cerrei os dentes,
com o líquido
entre a língua e a saliva
o fluido
que se recusa a misturar.
Não me odeies agora, ela pediu
que não me zangasse com ela
que não chorasse
mas era tarde demais.
E eu estava capaz de jurar para ela
para os momentos perdidos destruídos com ela
para o amor que se vai nas cartas dela
que a amava
mas era tarde.
O cigarro extinguiu-se
num sopro surpreendido quase tímido
num assobio imperceptível nas lágrimas dela
e tudo se fundiu lentamente.
Alguém pintou este quadro
com tinta flácida velha esquecida
com pó e lágrimas dela
com a minha saliva ensanguentada.
Alguém nos pintou, hoje
tentando ressuscitar-nos hoje
beijando a cinza dos nossos olhos
mas era tarde.
21-04-07
22.10.07
Carta Aos Dissolvidos
Tu. Tu da vida pré-fabricada. Tu que olhas para mim de cima do teu altar de merdas estereotipadas, pode ser para ti isto que escrevo.
Tu que estás a escolher as moedas para o cafezinho enquanto olhas para mim com repugnância. É para ti. Ou tu, junto à parede, com a namorada estupidamente cor-de-rosa que se esfrega em ti em busca de um pedaço minúsculo de brilho que não existe. Não existe.
Tu a passar de carro com a buzina frenética de tesão. Eu não sou pornografia. Nós não somos essa ideia absurda de prazer vazio.
Tu que me insultas e me humilhas há anos. Tu que me olhas enojado de mãos dadas com uma pita qualquer que tem o fio tão de fora das calças que quase lhe toca no decote. E criticas quem eu amo, quem eu desejo. Mas não sabes o que é foder, para ti trata-se de te despejares dentro de alguém. Eu nunca te deixarei sequer ter um relance do mundo que existe dentro de mim. De nós.
Tu que tens um nome para mim. Tu que sentes prazer com definições de coisas muito maiores que a porcaria do teu cérebro. Tenta só dar um nome a isto.
Para vocês. Para todos vocês que vivem na certeza de saberem muito bem quem eu sou, o que eu faço. Nunca vão sentir.
Tu que falas de mim quando eu não estou a olhar, tu que falas acerca de nós. Não sabes do que falas. Tu que nos vês e pensas em nós, não fazes ideia do que viste. Nunca hás-de sentir.
Tu que dizes «amo-te» a um gajo que enfia a língua na tua boca doze horas por dia. Tu que dizes «amo-te» enquanto ele te apalpa como se fosses a porra de uma pêra abacate à venda no supermercado. Tu que dizes «amo-te» na cama, quando ele já saiu de dentro de ti, e tu estás cheia do que saiu dele, e suor e saliva e hálitos, e mais nada. Não há mais nada. Nunca vais perceber.
Tu que me olhas e memorizas como se fosse eu a aberração, espera só até te veres em pânico quando reparares na doença que há dentro de ti. Não se cura.
Tu, e tu. Do fato de treino ridículo. Dos preconceitos todos alinhados nessa língua nojenta para mos cuspires em cima. Estás a transbordar de nada.
Você minha senhora, do crucifixo orgulhoso ao pescoço. Você que muda de lugar no autocarro, e quase vomita de desprezo a pescadinha do almoço. Dá-me pena. Antes de entrar nessa igreja devia pensar no pecado que é não viver. Nunca irá viver. Nunca sentirá um orgasmo nem uma ferida aberta, nem aquele rasgão em forma de grito que nos perfura a alma quando nos entregamos ao que realmente queremos. A sua perfeita aura vai morrer virgem, podre.
Vocês. Ex-namorados. Ex-amigas. Ex-amigos. Os que já não me falam. Os que falam quando eu não estou. Os que se afastaram. Tu, desconhecido que segura dentro de si uma tristeza tremenda que tenta disparar contra mim. É inútil. Nunca irás deitar-me abaixo. Experimenta só. Ou experimenta arranjar uma vida, se não for pedir demasiado.
Pousar o terço, pousar a namorada das tetas grandes.
Pousar a revista pornográfica, o programa de televisão, os amigos imbecis.
Pousar as merdas que te foram injectando nos neurónios para seres igual.
Esquece tudo.
Esquece os nomes que te ensinaram para “pessoas como eu” porque não existem “pessoas como eu”, é um mito. Só existo eu. E depois tu. E depois cada um de nós. Completamente sozinho e em permanente crescimento, ou em estagnação decadente. Experimenta ver. Para além do teu medo. Porque a diferença é a progressão. Porque estás a morrer por dentro, o que é uma pena.
Principalmente porque enquanto estás demasiado ocupado a rir-te de mim ou a insultar-me, eu sou diferente sim, sim imperfeita, desprezível, sim mutilada, espezinhada e sangrenta, mas a viver verdadeiramente.
18-10-07
Nexo [ficção]
Vais questionar-te por momentos acerca do que terás feito de errado, mas com satisfação desistirás dessa busca, atribuindo todos e quaisquer atritos à minha permanente incongruência.
Vais rasgar o meu bilhete e suspirar, caminhando para o quarto. As minhas roupas terão desaparecido por essa altura. As minhas cartas. As minhas cores. Só ficarão as cicatrizes da minha passagem. Permanecerão apenas os objectos que mudei de lugar para deixar a luz atingir-te o rosto.
Vais precisar de cerca de meia hora para te aperceberes de que levei tudo comigo, as noites, os perdões, as dores entornadas pelos corpos, a música. Levei o sangue e a saliva. Só deixei o bilhete. Devias sentir-te esmagado pela minha arrogância. A porra de um bilhete em troca de tudo.
Mas não te vais sentir esmagado. Não vais sentir uma pontada de dor, sequer. Não sentirás absolutamente nada, para já… a não ser talvez uma levíssima perturbação, um vago não-entender, voz subterrânea imperceptível.
Depois disto, eis o que vai acontecer; vais prosseguir com o quotidiano, a coreografia. Tudo vai parecer igual, cada previsibilidade será cumprida.
Mas eu, nunca serei substituída. Nenhuma outra mudará os objectos de lugar. Nenhuma mulher virá contrariar o teu nexo, a tua sensatez crónica. E lentamente começarás a aperceber-te da minha falta. Começarão a doer-te os espaços vazios que eu costumava habitar. As tuas arestas tornar-se-ão demasiado pontiagudas para o teu espírito e vai doer, vai doer, vai doer meu amor, a solidão, a forma como ela serpenteia dentro de ti sem rumo pré-agendado. Vais ter saudades da minha loucura, da minha desorganização propositada, dos meus abraços longos demais.
Tu, companheiro, virás procurar-me com pedaços do meu bilhete rasgado. A tua memória tingida com imagens do meu rosto já disformes, porque o tempo confunde as pessoas. Como esperarás reconhecer-me…? Encontrar-me-ás através da única coisa que sempre distinguiu os meus gestos dos outros gestos, as minhas palavras das outras palavras. E caminharás para mim buscando e carecendo de tudo aquilo que sempre te repeliu de mim. Chegarás transpirado e exausto, rendido com fragmentos do meu bilhete no fundo do teu olhar, e entre nós não voltará jamais a haver lugar para o nexo.
09-11-07
