22.10.07

Carta Aos Dissolvidos


Tu. Tu da vida pré-fabricada. Tu que olhas para mim de cima do teu altar de merdas estereotipadas, pode ser para ti isto que escrevo.
Tu que estás a escolher as moedas para o cafezinho enquanto olhas para mim com repugnância. É para ti. Ou tu, junto à parede, com a namorada estupidamente cor-de-rosa que se esfrega em ti em busca de um pedaço minúsculo de brilho que não existe. Não existe.
Tu a passar de carro com a buzina frenética de tesão. Eu não sou pornografia. Nós não somos essa ideia absurda de prazer vazio.
Tu que me insultas e me humilhas há anos. Tu que me olhas enojado de mãos dadas com uma pita qualquer que tem o fio tão de fora das calças que quase lhe toca no decote. E criticas quem eu amo, quem eu desejo. Mas não sabes o que é foder, para ti trata-se de te despejares dentro de alguém. Eu nunca te deixarei sequer ter um relance do mundo que existe dentro de mim. De nós.

Tu que tens um nome para mim. Tu que sentes prazer com definições de coisas muito maiores que a porcaria do teu cérebro. Tenta só dar um nome a isto.
Para vocês. Para todos vocês que vivem na certeza de saberem muito bem quem eu sou, o que eu faço. Nunca vão sentir.
Tu que falas de mim quando eu não estou a olhar, tu que falas acerca de nós. Não sabes do que falas. Tu que nos vês e pensas em nós, não fazes ideia do que viste. Nunca hás-de sentir.

Tu que dizes «amo-te» a um gajo que enfia a língua na tua boca doze horas por dia. Tu que dizes «amo-te» enquanto ele te apalpa como se fosses a porra de uma pêra abacate à venda no supermercado. Tu que dizes «amo-te» na cama, quando ele já saiu de dentro de ti, e tu estás cheia do que saiu dele, e suor e saliva e hálitos, e mais nada. Não há mais nada. Nunca vais perceber.
Tu que me olhas e memorizas como se fosse eu a aberração, espera só até te veres em pânico quando reparares na doença que há dentro de ti. Não se cura.
Tu, e tu. Do fato de treino ridículo. Dos preconceitos todos alinhados nessa língua nojenta para mos cuspires em cima. Estás a transbordar de nada.

Você minha senhora, do crucifixo orgulhoso ao pescoço. Você que muda de lugar no autocarro, e quase vomita de desprezo a pescadinha do almoço. Dá-me pena. Antes de entrar nessa igreja devia pensar no pecado que é não viver. Nunca irá viver. Nunca sentirá um orgasmo nem uma ferida aberta, nem aquele rasgão em forma de grito que nos perfura a alma quando nos entregamos ao que realmente queremos. A sua perfeita aura vai morrer virgem, podre.

Vocês. Ex-namorados. Ex-amigas. Ex-amigos. Os que já não me falam. Os que falam quando eu não estou. Os que se afastaram. Tu, desconhecido que segura dentro de si uma tristeza tremenda que tenta disparar contra mim. É inútil. Nunca irás deitar-me abaixo. Experimenta só. Ou experimenta arranjar uma vida, se não for pedir demasiado.
Pousar o terço, pousar a namorada das tetas grandes.
Pousar a revista pornográfica, o programa de televisão, os amigos imbecis.
Pousar as merdas que te foram injectando nos neurónios para seres igual.
Esquece tudo.
Esquece os nomes que te ensinaram para “pessoas como eu” porque não existem “pessoas como eu”, é um mito. Só existo eu. E depois tu. E depois cada um de nós. Completamente sozinho e em permanente crescimento, ou em estagnação decadente. Experimenta ver. Para além do teu medo. Porque a diferença é a progressão. Porque estás a morrer por dentro, o que é uma pena.

Principalmente porque enquanto estás demasiado ocupado a rir-te de mim ou a insultar-me, eu sou diferente sim, sim imperfeita, desprezível, sim mutilada, espezinhada e sangrenta, mas a viver verdadeiramente.


18-10-07

7 comentários:

p1ngger disse...

just be happy, sweet child!

Anônimo disse...

comovi-me, a sério.

vanessa xxx disse...

adorei mulher, consegues expressar tudo aquilo que sinto e não expresso. obrigada ^^

Diário de bordo disse...

olá!
este seu poema descreve mais ou menos muitas vezes quando me sinto "naqueles dias" a respeito da vida e das pessoas em geral...
resumindo: excelente composição ao meu ver, mesmo que a minha opinião não te valha nada.
você conseguiu visualizar meus pensamentos turvos em forma de palavra escrita...
mas o que vale é a intenção!
até mais!

pixel disse...

Fria redacção esta a quente ditada.

Gostei deste exercício de deo apontado e de raiva contida, que aposto terminou com um sorriso nervoso.

:))

pixel disse...

*dedo (assim está correcto)

神龍 disse...

Directa, clara, concisa...

Não quero dizer que me senti ou identifiquei no teu texto, apesar de ser verdade. Mostraria assim um pouco da minha cobardia, por pensar o mesmo sem o dizer, but oops, parece que acabei de o dizer...

A única coisa que me impressiona é a maneira de descreveres tudo o que descreveste...

Era bom que todos lessem isto, quando digo todos, digo mesmo todos, todas as pessoas quem existem no mundo, sejam elas quem forem... Mas com olhos de ver e perceber e não de julgar...
Ask before shooting, not otherwise...

Poderia não servir de muito, mas ao menos faria aqueles providos de consciência, pensarem e reverem todos os princípios pelos quais se guiaram até hoje para fazer o que chamamos de viver...





A tua pessoa impressiona-me mais do que deveria... should I worry?
Não me interpretes mal... onegai^^'

;)
shinRyuu^^