29.12.09

Cascais



A terra que foi antes a minha casa tornou-se no meu maior pesadelo desde que morreste.

Em Cascais, todos os dias é dia de dizer adeus. Despeço-me a cada passo de cada passo que dou.

Para mim o tempo está sempre cinzento em Cascais. E se a terra se abrisse e comesse toda a gente, eu era a única que não ficaria surpreendida.

Nasci e morri em Cascais.

Caminhar nestas ruas é viver de tripas expostas, é arrastá-las pela calçada fria. Desde que morreste, não voltei a respirar em Cascais sem um sobressalto de mágoa. E vejo o teu rosto em todos os corpos, em todos os vultos à espera nas passadeiras, e tu olhas para mim durante três segundos de dor dilacerante. Depois és sugada para dentro do rosto de uma qualquer pessoa que, afinal, não conheço de lado nenhum.

Não há uma rua neste maldito sítio que não tenhamos benzido com o nosso sangue, com a nossa saliva, com o nosso gritar. Orgulhámo-nos dessa conquista. Agora tudo o que resta é um campo de batalha destroçado com fantasmas que me condenam à paranóia.

Lambendo as nossas mãos ensanguentadas, abortámos o Futuro. Assim colhemos a Eternidade. Entreguei-te a minha Casa, quem diria que isso viria a humilhar-me assim? Caminho nas tuas ruas, nas tuas praias, nos teus esconderijos. Tudo troça de mim.

Em Cascais, ninguém me sorri. Bate-me todo o fumo na cara e a nossa música toca em todo o lado.

Este foi o lugar que eu mais amei no Mundo. Deitei isso a perder...

Porque nada do que é meu me pertence. Porque por isso, quis dar de mim. E em todos os lugares em que esqueci de me amar, perdi-me. Tudo em troca de um acorde perfeito.





Hoje está um dia cinzento em Cascais.

E tudo o que eu queria
era viver de novo para ser capaz de sentir a chuva.






27-12-09
«Don’t give away the end,
the one thing that stays mine.»

Um comentário:

Anônimo disse...

Torturas-te.
Vives.
Torturada.