Fará Deus ideia da quantidade de vezes que o seu nome é evocado em filmes pornográficos? Os momentos em que mais sou relembrada do nome do Senhor é enquanto assisto a pornografia. Não faço ideia do que isso possa significar. Mas não deixa de ser interessante. É como se a fé tivesse fugido das ruas, das igrejas, dos pelourinhos, e se tivesse escondido nos estúdios mal saneados onde oleadas vaginas saltam em cima de caralhos pulsantes. Tudo isto enquanto uma câmara filma, para que milhões e milhões possam desfrutar em privacidade de uma poderosa experiência religiosa.
Quando dou o primeiro gole, ela ainda costuma estar a fazer-se desentendida. Quando dou o último, já ela está a receber com um sorriso estupidamente infantil jactos de esperma por cima do seu peito.
A pornografia é uma coisa muito bonita. Faz-nos esquecer de toda a realidade, por ser tão completamente falsa. Nada daquilo satisfaz a nossa inteligência, mas também não chega a chatear, por estarmos tão tesos. No fundo, vendemos o nosso bom gosto por foda. Vendemos a nossa moral. O nosso sentido crítico. A nossa sensibilidade humana. E que mais? …Depois vimo-nos, mais cedo ou mais tarde. E depressa olhamos para o lado, enojados.
As raparigas da pornografia partem-me o coração. Quando mais inocentes parecem, mais porcas são, e não há nada que possamos fazer para nos esquecermos disso. Uma vez termos visto uma pessoa de quatro a levar com tanta força que os olhos se lhe entortam, não conseguimos propriamente voltar a olhar para aquela pessoa sem isso presente. Primeiro, porque não as conhecemos fora desse contexto, e segundo, porque mesmo quando elas parecem estar a demonstrar um pouco de quem são, esse momento dura dez segundos até à cambalhota seguinte. Por isso, no fundo, pensamos nelas como seres humanos de dignidade descartável. E esta dignidade pode durar apenas tanto tempo como um diálogo iletrado acerca de marotices.
Aparte a pornografia caseira, parece-me sempre idiotia pretender representar num filme porno um casal que busca reavivar a chama no seu longo casamento. Isto porque é uma máscara insustentável porque quem está ou esteve casado sabe muito bem que não é assim. Para além de todo o acto se assemelhar a uma demonstração de ginástica acrobática, não há um único olhar, uma troca de palavras, nem uma pausa para respirar. Nada. Ou talvez estejam com demasiada pressa, por os miúdos estarem quase a voltar da natação.
Quando dou a primeira passa, ele ainda está só a olhar para ela com ar de imbecil ostentando a voluptuosa protuberância nas suas calças. Quando dou a última passa, já ele bufa de alívio e cansaço por aquela merda ter chegado ao fim. Sacode o membro dorido com o resto do líquido sagrado que sela o fim da cerimónia.
Ao fim e ao cabo, não temos desculpa para ver aquela porcaria. Nem as gajas são assim tão boas, nem as imagens as que queremos realmente ver. Vemo-lo porque a solidão é rasca, e leva-nos a vasculhar nos caixotes do lixo. Vemo-lo porque a pornografia é a fast-food do sexo; mata a fome momentaneamente, engole-se rápido, e só pensamos no quão é nojento depois.
Há quem se sinta mal. Há quem se sinta culpado. Eu encho outro copo e abraço a natureza humana.
06-01-10
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