Vou imaginá-la com os olhos abertos, para que a realidade me socorra. Tem de ser denso mas quente. Transcendente mas carnal. Já sei.
O coração dela bate ao ritmo de Portishead.
Quero continuar. As minhas mãos levantam-se no ar como se me preparasse para tocar num enorme piano. Os dedos esticam-se e contorcem-se, buscando tocar a poesia líquida do ar. Os meus ombros arrepiam-se, num vazio ansioso. Vou imaginá-la com as mãos abertas, para que o mundo me possa agarrar.
Ela está à minha espera no topo de uma montanha que escalou durante dias, sozinha e descalça. No entanto os pés dela permanecem intactos, como que por magia.
Pouso a caneta observando a minha sombra. Se eu imaginasse nestas paredes um enorme oceano, a minha sombra é tudo o que eu seria. E fecho as mãos cega de poder, de poder escolher ser apenas isso. Poder ser qualquer coisa.
Ela tem o cabelo caído sobre o rosto, e nada conhece acerca da Beleza que esperam que ela simbolize.
Quero tocar mas tudo o que sinto aqui é a minha própria textura. Quero provar mas tudo o que tenho aqui é a minha própria saliva. Fecho os olhos para que a realidade não possa salvar-me nunca mais.
Ela dançará comigo flutuando, para que nunca nos pisemos acidentalmente.
A luz da manhã vai soltar fiapos brilhantes à nossa volta, e ela vai chorar comigo apenas de felicidade.
Vamos passar as noites acordadas em demandas imaginárias. Como crianças perdidas.
Nos olhos dela vou encontrar a selva e o lar.
Vou resgatá-la agora, deixando o escuro para trás. Charcos de poesia líquida para ela beber das minhas mãos. E hei-de encontrá-la, e vou amá-la, de olhos fechados e de mãos abertas.
5 comentários:
Conhecer-te fez-me questionar algo que não mudará a minha vida mas muda o meu conhecimento (este que muda muito por te conhecer).
Todos temos uma melhor forma de nos expressarmos, sendo a tua a escrita obviamente. Existirá algo como excesso de expressão? Utilizo a palavra "excesso" por ser negativa, ou seja, algo que nos poderá fazer mal (mentalmente neste caso). Algo que nos faz viver apressadamente, explorando tudo de forma penetrante até não restar nada a ser discutido ou reflectido, até acabar toda aquela delícia de exploração, de conhecimento, de aprendizagem.
A minha questão é:
Será melhor explorar tudo dessa forma correndo então esse risco mas, sem dúvida alguma, vivendo esses temas?
Ou
Será melhor viver por vezes ignorando certos temas ou, pelo menos, não os explorando afincadamente deixando a própria existência tomar conta dessa exploração como uma viagem?
Um pensamento que não altera o nosso modo de vida porque, em circunstância alguma, devemos ignorar quem somos. Eu vivo da segunda questão, não por opção, e vejo-te de rastos por viveres na primeira questão. Nada pode ser feito porque és tu e esse é verdadeiramente o nosso único pertence.
Desculpa, se calhar devia criar o meu blog para os meus próprios desabafos mas não faria sentido porque tu é que me fazes questionar. Estou-te eternamente grata por isso. Não uso e deito fora, continuo a aprender contigo na esperança de te dar sempre algo em troca.
Esse alguém sou eu, a Nádia.
Amor de uma vida, tu.
Amorzinho ^^
Vivo lutando bastante com essa questão: quando é que pensar é pensar demasiado? Quando é que aprofundar é aprofundar demasiado?
Quanto à expressão, penso que não deves vê-la como algo que me muda as experiências, mas como uma digestão posterior dessas experiências e um 'aconchegar' emocional dessas experiências dentro de mim. Ou seja, a minha expressão não interfere com a minha forma de sentir o Presente real, mas sim permite-me exteriorizar os seus resíduos do meu interior. E também transmitir (uma coisa muito importante para o ser humano - a partilha) uma visão da minha história, uma visão só minha, uma que não me traia, uma que reste quando mais nada ficar. E também outras histórias que eu tenha dentro de mim, minhas ou não, reais ou não, que explodem para ser contadas e vão pintar as paredes de outros caminhos.
Em relação à questão 'Será melhor viver por vezes ignorando certos temas ou, pelo menos, não os explorando afincadamente deixando a própria existência tomar conta dessa exploração como uma viagem?'
Creio que é impossível explorar afincadamente seja o que for (pelo menos com frutos) sem deixar a própria existência tomar conta dessa exploração. Podemos passar cem anos a pensar e a dissecar um assunto, mas só colheremos frutos VIVENDO, quer queiramos quer não. E é por eu viver tanto quanto penso, que considero inofensiva a minha necessidade de pensamento e expressão, porque ela não me amarra nem monopoliza a amplitude da minha existência.
Em relação às coisas em que é melhor não pensar, acho que a alma as reconhece, e não nos deixa sequer aventurarmo-nos, pois elas encontrarão maneira de nos incorporar pacificamente, resolvidas ou não.
Espero ter-me feito entender. Isto é tudo um bocadinho abstracto, e é totó falar contigo por blog. Preferia no teu sofá, com a Nina por cima de nós, a beber chá com leite e a fumar um charro.
Abraço infinito.
Nor*
PS. - E quanto à minha dor, penso que se prende mais com a minha forma de Sentir e Receber o Presente real, e não tanto na minha forma de processá-lo, e esse é todo um outro tema de conversa, que prefiro mesmo ter no teu sofá x)
@
Também o prefiro num sofá ou em qualquer outro cenário, contigo.
Infelizmente a minha expressão verbal tem uma dimensão que não me atrai (porque gaguejo e engasgo-me lol).
Não vou então comentar por este meio. Concluo apenas que existe um meio termo entre estas duas opostas vivências e que estarei sempre espiritualmente contigo.
Desta parva que te sente @@
P.S.: Encontro-me a usar os calções havaianos que anulam todo o respeito que tens por mim XD
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