Estou à espera que atendas. Depois digo: Olá. Digo: Sou eu. E eu sei, que o meu Eu será sempre o teu Tu. Susténs a respiração, como que assustada. Depois dizes, A tua voz., Não estava à espera de ouvir a tua voz. É a melhor voz do mundo. É a única voz que eu quereria ouvir para sempre.
Agora estou à beira de lágrimas estremecentes e engulo em seco. Digo qualquer coisa e tu interrompes-me, Amo-te. Digo, Também te amo. Dizes, Amo-te mesmo, mesmo a sério. Como dizias antes. E eu sorrio e o meu olhar encontra-se sem querer com o meu reflexo no espelho, e vejo-me sorrir para ti, e essa visão dilacera-me como dilaceram os cheiros que se perderam na infância. Quero saber como estás. Mas como estamos não é relevante quando estamos a ouvir as nossas vozes, novamente juntas, como instrumentos solistas da maior sinfonia da História.
Repetes, Amo-te para sempre. E dizes o meu nome num suspiro tão profundo que quase cai e bate no chão. Sabemo-nos perdidas. Para toda a eternidade. Como para toda a eternidade me ofereces o teu amor, sem as hesitações das pessoas comuns. As lágrimas irrompem, como tempestade. Pedes que não chore, pedes sempre que não chore, como se o tempo que temos nesta vida fosse escasso demais para o perder a fazer algo que não seja repetir, Amo-te. Amo-te. Amo-te. Amo-te.
A tempestade regressa ao coração. Páro de soluçar. Digo adeus, desligo o telefone, e juro que me sinto como se tivesse uma fera demente dentro de mim a quem acabei de dar o alimento mensal.
Eu e tu, vivemos numa rotina silenciosa de amor. Eu estendo a roupa enquanto tu fazes o jantar. Eu brinco com as meias desirmanadas, e tu gritas com o tabuleiro a escaldar. Canto uma música qualquer. Depois jogamos à apanhada pela casa toda, descalças, delirantes, para ver quem lava a loiça. Eu e tu, brilhantes como irmãs, ofegantes como amantes.
Contigo o amor é uma Casa.
Choro por cima do teu colo, soluço-te na camisa, e tu assustas-te de me veres as feridas. Saímos quando está sol, eu dou de comer aos gatos vadios, tu ficas a olhar para mim em silêncio. Depois entramos no carro, tu pões aqueles óculos escuros com que eu embirro constantemente, e ouvimos a música que eu tornei necessária aos nossos dias.
Perdemo-nos num ou outro debate trivial, amamos como crianças a paisagem, e seguimos sem destino a morrer do prazer da liberdade.
Contigo o amor é uma viagem.
À noite fumamos um charro, conversamos ou lutamos em pijama, eu ganho-te sempre apesar de me dares umas vigorosas palmadas. Eu gozo contigo por ficares despenteada, e provavelmente por alguma coisa que disseste com sotaque. Deitamo-nos juntas a ver um filme, tu adormeces sempre primeiro, e eu ralho contigo e chamo-te porque estás a perder a história toda. Quando o filme acaba queres sempre que eu fique, mas eu vou para a minha cama porque já sou crescida. De manhã acordas-me tranquilamente 5 vezes até eu me levantar. E começa tudo outra vez.
É como se o tempo se estendesse num lençol que nos baloiça, só quero ver e agarrar tudo. A vida é tão intensa mas é segura. Deixas-me voar tão alto mas nunca me falhas para eu pousar. Somos uma família.
(...) A única parte divina acerca dos acontecimentos é, justamente, a Escolha. E a única parte misteriosa somos, surpreendentemente, nós mesmos, arquitectos e construtores distraídos das obras de arte com que nos deparamos, desconhecendo que é nosso o mérito, e não da Coincidência. Poderás responder, - e o fluxo que corre dentro de nós, não será ele divino? – e eu responderei, sim, absolutamente. Mas será ele sempre a comandar os nossos pés, as nossas mãos? Será ele quem traz os momentos-chave até nós? Ou será ele apenas o processador? – E tu, cheia da sabedoria da tua paixão, responderás, mas não estará o fluxo divino em tudo? Nas mãos, nos pés, nos acontecimentos, na brisa, nas sensações, nas aparentes coincidências? E eu render-me-ei – sim, tens razão. Tudo é divino, tal como nós. Somos criação, depois criadores. – E no fim faremos amor até anoitecer, porque nada mais nos resta.
Vou sempre amar-te com a força de um leão que esfaqueia a fémea com as suas garras enquanto a possui. Ela sangra e geme mas o rugido é mais poderoso e ecoa na planície inteira. Abutres apáticos esvoaçam.
Vou sempre amar-te como se ama um revólver a escaldar na mão. Como fadas, como brisas, como purpurina. Como carne humana nos caninos. Vou sempre chorar-te atenta ao teu cheiro na multidão. E vou persegui-lo até encontrar um antídoto.
Nunca serei perdoada por ter embalsamado esta fome autoritária, por a usar ao peito quando já não existes. Por te ordenar que te ajoelhes, nos meus sonhos, como fazíamos, no teu quarto.
Vais sempre amar-me como um oceano que engole, ofegante, perturbado. Vais ser sempre a erosão dos meus muros, com o teu olhar sôfrego que se esfrega. Olhas para mim com temor, deslumbramento, urgência. Como estrelas, como açúcar, como pêndulos hipnóticos.
Para sempre, perdi-te entre a multidão. E assim se perpetua o instante de um silêncio assassino. O leão é mero cadáver. O rugido dissipou-se.
Abutres esqueléticos regozijam-se com a minha carne envenenada.
Era manhãzinha. Abri a janela à amante e mostrei-lhe o quão fresco é o cheiro do Mundo. Os pássaros tagarelavam e o ar revolvia-se a emoldurar o quotidiano. Ela não queria sentir, por isso insisti um pouco. Então as suas asas abriram-se, frágeis e renitentes, e voando timidamente lá foi ela em direcção ao fim desta história. Fico na cama, despida. Oiço os gatos vadios delirando na rua, a procurar esfomeados onde depositar a sua fúria sexual. Murmuro-lhes que às vezes mais vale esperar pela chuva gelada. Não vai chegar o nosso casulo. Não surgirão os olhos perfeitos que nos farão florescer. Não podemos continuar à espera. Tapo-me com os lençóis até não ver um ponto de luz. Até ao pôr-do-sol gememos, eternamente vadios, eu e todos os gatos.
Oiço as canções de amor dos outros e sorrio, feliz por haver quem ame. Estou de sol no rosto e bainha na mão. Não há canção para mim. Não faz mal. Eu sorrio ouvindo as dos outros, sozinha, triunfante de escuridão e desejo. A poesia diz-me para esperar. Que ficarei forte e maior. Que alguém vai querer segurar-me. Mas eu só quero que me larguem, que me soprem. Porque o meu amor está no vento. Está no brilho de todos os olhos. E nas minhas asas ardendo na luz. Está nos livros empoeirados. No silêncio do beijo. Nos pianos irrequietos. O meu amor está vibrando em todo o lado a toda a hora. E foge, para eu nao parar de o encontrar.
(Chovem beatas no meu telhado e há musgo a crescer em mim. As horas passam e fogem depois de me montarem como prostitutas bem ensinadas. Pequenas florzinhas brotam da humidade do meu corpo.) Tenho a certeza de que não te lembras de quando adormecias ao meu lado e eu ficava a noite inteira a contar os teus cabelos, fios brilhantes de certeza. Brilhantes de promessas. Às vezes gritavas comigo e eu apaixonava-me ainda com mais força pelos teus olhos. Doente. Agora as noites são límpidas de sonhos e ninguém chora. Sinto falta das tuas lágrimas na minha cara, porque estavas perto. Tão perto. (Queria alguém a chorar contra mim. Alguém que arrancasse este musgo.)
Tenho algumas cicatrizes a confessar. Atravessam-me a alma até à epiderme. Exibem-se desavergonhadas a quem me despe.
Estou quase preparada, mas não realmente. Sou sempre acompanhada, mas não realmente. Estou quase equilibrada, mas não realmente. Sou quase amada, mas não.
Tenho um pássaro sonolento na janela e uma amante voadora na cama. A tarde cose juntos os nossos corpos, flutuantes entre fiapos de luz. Vejo-nos no espelho, eu e ela no ar.
Vieste de madrugada quando eu já estava sóbria. As veias quase saltavam do teu braço, quase rompiam a pele, tão inchadas e azuis. Eu acendi um cigarro de mentol e apercebi-me de que o meu romance não tinha futuro. Pensei em Greene, pensei em Cunningham, em Palahniuk, pensei no teu sexo vertendo os meus sonhos. Mas nada. As palavras junto de ti esvaíam-se em desejo. Os teus lábios cheiravam a baunilha dentro da minha cama e sorrimos até o sol raiar. Os meus pés contra os teus pés. A pedalar o sono.
«To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away.»