24.10.07

Tarde


Apaguei um cigarro nos olhos dela
e senti o cheiro das lágrimas queimadas
nesse momento eu estava capaz de jurar
que a amava
como a nenhuma outra
como a nenhuma.
Mas não jurei
lambi o sangue e cerrei os dentes,
com o líquido
entre a língua e a saliva
o fluido
que se recusa a misturar.

Não me odeies agora, ela pediu
que não me zangasse com ela
que não chorasse
mas era tarde demais.
E eu estava capaz de jurar para ela
para os momentos perdidos destruídos com ela
para o amor que se vai nas cartas dela
que a amava
mas era tarde.

O cigarro extinguiu-se
num sopro surpreendido quase tímido
num assobio imperceptível nas lágrimas dela
e tudo se fundiu lentamente.
Alguém pintou este quadro
com tinta flácida velha esquecida
com pó e lágrimas dela
com a minha saliva ensanguentada.
Alguém nos pintou, hoje
tentando ressuscitar-nos hoje
beijando a cinza dos nossos olhos
mas era tarde.


21-04-07

22.10.07

Carta Aos Dissolvidos


Tu. Tu da vida pré-fabricada. Tu que olhas para mim de cima do teu altar de merdas estereotipadas, pode ser para ti isto que escrevo.
Tu que estás a escolher as moedas para o cafezinho enquanto olhas para mim com repugnância. É para ti. Ou tu, junto à parede, com a namorada estupidamente cor-de-rosa que se esfrega em ti em busca de um pedaço minúsculo de brilho que não existe. Não existe.
Tu a passar de carro com a buzina frenética de tesão. Eu não sou pornografia. Nós não somos essa ideia absurda de prazer vazio.
Tu que me insultas e me humilhas há anos. Tu que me olhas enojado de mãos dadas com uma pita qualquer que tem o fio tão de fora das calças que quase lhe toca no decote. E criticas quem eu amo, quem eu desejo. Mas não sabes o que é foder, para ti trata-se de te despejares dentro de alguém. Eu nunca te deixarei sequer ter um relance do mundo que existe dentro de mim. De nós.

Tu que tens um nome para mim. Tu que sentes prazer com definições de coisas muito maiores que a porcaria do teu cérebro. Tenta só dar um nome a isto.
Para vocês. Para todos vocês que vivem na certeza de saberem muito bem quem eu sou, o que eu faço. Nunca vão sentir.
Tu que falas de mim quando eu não estou a olhar, tu que falas acerca de nós. Não sabes do que falas. Tu que nos vês e pensas em nós, não fazes ideia do que viste. Nunca hás-de sentir.

Tu que dizes «amo-te» a um gajo que enfia a língua na tua boca doze horas por dia. Tu que dizes «amo-te» enquanto ele te apalpa como se fosses a porra de uma pêra abacate à venda no supermercado. Tu que dizes «amo-te» na cama, quando ele já saiu de dentro de ti, e tu estás cheia do que saiu dele, e suor e saliva e hálitos, e mais nada. Não há mais nada. Nunca vais perceber.
Tu que me olhas e memorizas como se fosse eu a aberração, espera só até te veres em pânico quando reparares na doença que há dentro de ti. Não se cura.
Tu, e tu. Do fato de treino ridículo. Dos preconceitos todos alinhados nessa língua nojenta para mos cuspires em cima. Estás a transbordar de nada.

Você minha senhora, do crucifixo orgulhoso ao pescoço. Você que muda de lugar no autocarro, e quase vomita de desprezo a pescadinha do almoço. Dá-me pena. Antes de entrar nessa igreja devia pensar no pecado que é não viver. Nunca irá viver. Nunca sentirá um orgasmo nem uma ferida aberta, nem aquele rasgão em forma de grito que nos perfura a alma quando nos entregamos ao que realmente queremos. A sua perfeita aura vai morrer virgem, podre.

Vocês. Ex-namorados. Ex-amigas. Ex-amigos. Os que já não me falam. Os que falam quando eu não estou. Os que se afastaram. Tu, desconhecido que segura dentro de si uma tristeza tremenda que tenta disparar contra mim. É inútil. Nunca irás deitar-me abaixo. Experimenta só. Ou experimenta arranjar uma vida, se não for pedir demasiado.
Pousar o terço, pousar a namorada das tetas grandes.
Pousar a revista pornográfica, o programa de televisão, os amigos imbecis.
Pousar as merdas que te foram injectando nos neurónios para seres igual.
Esquece tudo.
Esquece os nomes que te ensinaram para “pessoas como eu” porque não existem “pessoas como eu”, é um mito. Só existo eu. E depois tu. E depois cada um de nós. Completamente sozinho e em permanente crescimento, ou em estagnação decadente. Experimenta ver. Para além do teu medo. Porque a diferença é a progressão. Porque estás a morrer por dentro, o que é uma pena.

Principalmente porque enquanto estás demasiado ocupado a rir-te de mim ou a insultar-me, eu sou diferente sim, sim imperfeita, desprezível, sim mutilada, espezinhada e sangrenta, mas a viver verdadeiramente.


18-10-07

Nexo [ficção]


Vou deixar um bilhete para ti em cima da cama. Tu não vais compreender o que o bilhete diz, atordoado entre palavras e frases sem nexo. Vais perceber que o bilhete é meu por causa da falta de nexo que sempre distinguiu os meus gestos dos outros gestos, as minhas palavras das outras palavras.

Vais questionar-te por momentos acerca do que terás feito de errado, mas com satisfação desistirás dessa busca, atribuindo todos e quaisquer atritos à minha permanente incongruência.

Vais rasgar o meu bilhete e suspirar, caminhando para o quarto. As minhas roupas terão desaparecido por essa altura. As minhas cartas. As minhas cores. Só ficarão as cicatrizes da minha passagem. Permanecerão apenas os objectos que mudei de lugar para deixar a luz atingir-te o rosto.

Vais precisar de cerca de meia hora para te aperceberes de que levei tudo comigo, as noites, os perdões, as dores entornadas pelos corpos, a música. Levei o sangue e a saliva. Só deixei o bilhete. Devias sentir-te esmagado pela minha arrogância. A porra de um bilhete em troca de tudo.

Mas não te vais sentir esmagado. Não vais sentir uma pontada de dor, sequer. Não sentirás absolutamente nada, para já… a não ser talvez uma levíssima perturbação, um vago não-entender, voz subterrânea imperceptível.

Depois disto, eis o que vai acontecer; vais prosseguir com o quotidiano, a coreografia. Tudo vai parecer igual, cada previsibilidade será cumprida.
Mas eu, nunca serei substituída. Nenhuma outra mudará os objectos de lugar. Nenhuma mulher virá contrariar o teu nexo, a tua sensatez crónica. E lentamente começarás a aperceber-te da minha falta. Começarão a doer-te os espaços vazios que eu costumava habitar. As tuas arestas tornar-se-ão demasiado pontiagudas para o teu espírito e vai doer, vai doer, vai doer meu amor, a solidão, a forma como ela serpenteia dentro de ti sem rumo pré-agendado. Vais ter saudades da minha loucura, da minha desorganização propositada, dos meus abraços longos demais.
Vais ter saudades das divergências, discordâncias, das encruzilhadas.

Tu, companheiro, virás procurar-me com pedaços do meu bilhete rasgado. A tua memória tingida com imagens do meu rosto já disformes, porque o tempo confunde as pessoas. Como esperarás reconhecer-me…? Encontrar-me-ás através da única coisa que sempre distinguiu os meus gestos dos outros gestos, as minhas palavras das outras palavras. E caminharás para mim buscando e carecendo de tudo aquilo que sempre te repeliu de mim. Chegarás transpirado e exausto, rendido com fragmentos do meu bilhete no fundo do teu olhar, e entre nós não voltará jamais a haver lugar para o nexo.


09-11-07